segunda-feira, 31 de março de 2014

ABC de A a Z

Continuam os perfis dos autores do El Fanzine, agora com ABC.


 Onde você nasceu e onde você mora hoje?

ABC é o único quadrinhista com música tema
Nasci no Rio de Janeiro e continuo no Subúrbio.

Conte um pouco do seu primeiro contato com os quadrinhos. Lembra do primeiro gibi que leu?

É complicado explicar o primeiro contato, pois, desde que me reconheço como eu, leio quadrinhos. Talvez, o mais antigo que me vem a memória, fossem quadrinhos da Disney (numa época áurea aonde se adquiria formatinhos com mais de 5 histórias e que ainda vinham com QUIZ com a resposta na revista do mês seguinte.) Lembro que lia todos: Zé Carioca, Mickey Detetive, Pateta & figurantes e, claro, Donald.


Depois desse primeiro gibi, como se desenvolveram seus hábitos de leitura em quadrinhos e como eles mudaram ao longo do tempo? Quais gibis você leu com regularidade? Colecionou alguma série?

O Rei do Futebol homenageia o Príncipe dos Quadrinhos
Meus hábitos de leitura com quadrinhos se misturam demais com os meus hábitos de leitura de filmes. Eu e meu irmão não recebíamos “mesada”. Entramos num acordo com meu pai no qual ele alugaria filmes e nos compraria quadrinhos todo final de semana. Daí começamos a colecionar X-men, Homem-Aranha, Marvel, Batman, Superman; e nos intervalos de leitura assistíamos os VHS alugados. Colecionamos os quadrinhos até o Homem Aranha ficar com um colete azul, e o Superman morrer numa batalha de um quadrinho com a capa metálica.
Após essas decepções, que marcaram demais nossas infâncias, nos fixamos nos VHS. Quando acabamos de assistir tudo da locadora e os gibis se tornaram chatos  e com muitos esteróides, mudamos nossos hábitos. Compramos um aparelho de DVD, mudamos de locadora, e começamos a colecionar Mangás:  Yuyu Hakusho, Ruroubi Kenshin, Sakura CC, Dragon Ball, Vagabond, Evangelion, Love Hina, One Piece...
"ABC, ABC, toda criança tem que ler e escrever!"
Quando os Mangás inflacionaram, e na locadora acabaram os filmes novamente, partimos pra uma pausa – mais do que merecida. Fomos aprender violão (já éramos adolescentes). Nosso professor de violão, coincidentemente, era um fanático por gibis de super heróis e nos perguntou se queríamos a caixa de velharia dele. Então basicamente recebemos em casa uma coleção de toda Marvel e DC da década do final da década de 70, toda década de 80 e um pouco dos 90, bem como Spawn, Vertigo, Conan e alguns Spirits...
Ele me incentivou a voltar a desenhar (ele também desenhava) e me chamou atenção para a assinatura dos artistas (até esse momento eu não sabia que as pessoas poderiam trabalhar com quadrinhos).
Depois desse incentivo, o fim do acervo de uma locadora, a inflação dos quadrinhos, parti para a práxis que mantenho até hoje: Downloads.

Lê algum gibi regularmente hoje em dia?

Não, sou muito chato com séries. Gosto mais de volumes fechados. Compro muitas Graphic Novels, e, as vezes, raríssimas vezes, compro aquelas compilações de séries que eles vendem como “Graphic Novels”.
De série mesmo, sou fã só de “El Fanzine”.
Entre uma compra e outra, também mantenho o costume de pegar emprestado quadrinhos que não tenho coragem de comprar... e esqueço de devolver...

Se tivesse que listar os 10 melhores gibis que já leu, quais seriam?

Não que estejam numa ordem, ok? Seriam: Um Contrato com Deus, Maus, Piada Mortal, Watchmen, Valentina, O Reino do Amanhã, Rurouni Keshin, Reinventando os Quadrinhos, Batman Ano UM, Yuyu Hakusho.

Quando e como começou a fazer quadrinhos independentes? Consegue listar tudo o que produziu até hoje como autor independente?

Depois que esse meu antigo professor de violão me incentivou a voltar a desenhar, como pobre morador do subúrbio (leia-se: Cascadura/Rio de Janeiro) fiz o que sabia fazer: downloads.
Infelizmente não existia acervo de bons livros em português (para serem ilegalmente adquiridos pela internet), somente em inglês. Daí, peguei a grana que eu tinha (uns 30 reais – que hoje deve ser uns 94,75 reais), fui num sebo em Madureira e comprei três gramáticas de Inglês/inglês. Li a iniciante, fiz os exercícios; li a intermediaria e fiz os exercícios, li a avançada e não consegui fazer NADA... Fui ver se o que tinha aprendido já era suficiente para ler o que queria, e era!!! (esse processo durou uns 3 meses – greve da UERJ 2006).
ABC é citado em cena do filme "O
sucesso a qualquer preço"
Daí em diante, comecei a adquirir ilegalmente através da internet todo tipo de literatura sobre quadrinhos: Andrew Loomis, Scott Mclloud, Will Eisner, Stan Lee e Buscema, George Bridgman, Burne Hogarth, Gwen White, George White, Pat Duke e Greg Capullo... foi muito produtivo. No mesmo ano, ganhei de uma ex namorada o tal “Guia DC comics (desenhos e roteiro)” e também me deram uma luz.
Dois anos de estudo depois, dei um golpe de sorte com um edital na faculdade e faturei 2 mil reais em um mês de trabalho (com a inflação, isso deve ser mais ou menos 75 mil reais hoje =P). Peguei a grana TODA e paguei UM ANO de curso de História em Quadrinhos (o único curso com alguma visibilidade e seriedade no Rio de Janeiro. O slogan de “promessa de contrato e agentes nos EUA” foram um chamariz... mas, algumas semanas bastaram para notar alguns aspectos não divulgados sobre o curso:
- A maior parcela que frequentava o curso era de gente que discutia sobre a cor da cueca do Superman que era bem mais vermelha do que todo o uniforme do Daredevil, ou que o Flash sempre ganharia uma disputa de Jokenpo contra o Sonic e o Papaléguas... enfim, discussões que eram severamente entendiantes, mas eles levavam a sério;
Convenção de fãs do quadrinhista ABC nos EUA (ABC Con)
- Todos os estudos do curso (anatomia, atrofia, poses de ação, cenas de ação) eram voltados para o quadrinho de super herói. Foram alguns meses de tormenta naquele lugar, até que esbarrei com os 4 Muchachos do El Fanzine (um integrante saiu – F. Montenegro -, por isso agora somos oficialmente só 4). Tínhamos interesses comuns que não se afinavam com o restante das pessoas do curso. Nós curtíamos autores norte americanos que sabiam contar uma história sem ninguém precisar usar colant, além de europeus.
Naquela mesa começamos a planejar a idéia do primeiro EL FANZINE. Nossa primeira edição foi em 2008 (no final do mesmo ano em que me matriculei). Nossa produção foi em fotocópia (nem vou comentar a sórdida desventura de Tito Camello para conseguir tirar xerox dos nossos exemplares a preço de seu emprego), grampeada a 5 mãos, guilhotinada com tesoura de costura e vendida a 1 real (que hoje seria mais ou menos 9,50 reais). Uma tiragem de 100 exemplares e sucesso absoluto, nenhuma sobra (nem mesmo as nossas!). Virou lenda!
Depois disso já produzi nos quadrinhos independentes:
- El Fanzine (todos os volumes);
- Projeto FDP (nunca publicado, ainda aguardando outros desenhistas enviarem suas páginas – isso já fazem 4 anos!);
- Gonzaga Duque e os Salões de Arte Brasileiros no séc XIX (projeto de faculdade);
- Menina Flor (um projeto independente sobre meio ambiente que está em editais mundo a fora);
- In my Life (tirinha sobre o cotidiano de minha humilde pessoa que publico no facebook);
- Zumbis no Futuro (um roteiro de Leonardo Melo, aonde produzo a terceira parte. A primeira “Zumbis no Velho Oeste” ficou por conta do Titto, e a segunda “Zumbis na Era das Gangues” está nas mãos do Nemo).
É uma lista pequena, de quase 0 publicações, mas é de coração.

Consegue listar suas principais influências?

Complicado isso... me influencio por tudo. Vou listar aleatoriamente entre filósofos, roteiristas, diretores, pintores, romancistas e etc... Quando produzo uma história começo o máximo de repertório que puder. Ver como já trabalharam, e o que já funcionou... aí vai: Aristóteles, Machado de Assis, Hitchcock, Eiseinstein, Guido Crepax, Jean Giraud, Charlie Kaufman, Syd Field, Robert Mckee, Karel Reisz, Miró, Israel Pedrosa, Kandinsky, Michelangelo, Bernini, John Williams, Ingmar Bergman, Santo Agostinho, Bíblia, Mestre Will Eisner, Brune Hogart, Adrew Loomis, Mignola, Klaus Jason, Neil Gaiman, Mike Deodato (pós década de 90), Milo Manara, Serpieri, Marjani Satrapi, Frank Cho, Mestre Stan Lee, Art Spielgman, Fritz Lang, John Ford, Woody Allen, Mario Bortolotto, Alejandro Jodorowsky, Oswald de Andrade, Nam June Paik, Scorsese, Spielberg, (Darren) Aronofsky, Cronenberg, Kubrick, Robert Crumb, Kerouac, George Martin. Tenho problemas de prolixia, não tenho foco...




Alguma mania ou peculiaridade na hora de produzir quadrinhos?

Sim! Sou prolixo, não sei fazer resumos... meu processo é extremamente lento. Tedioso, depressivo, alegre...
Primeira parte:
Tenho uma idéia, fico pensando nela semanas e criando coragem para escrever. Quando crio um documento em branco no word (normalmente) escrevo numa tacada só – faço um conto. Revisito esse conto algumas vezes, e quando acho que está bom envio para alguns amigos nos quais confio na opinião. Recebo o feedback e altero alguns pontos.
Segunda parte:
Grifo os diálogos e começo a planejar todos os thumbnails. Normalmente eu faço dois para cada página e vou marcando no conto os trechos que vão entrar como dialogo e os que vão entrar como imagem.
Terceira parte:
Começo a fazer uma decupagem e procurar imagens e textos que me ajudem. Saio pra bater fotos, cato coisas no google, compro livros, faço perguntas a professores da faculdade que ainda mantenho contato e monto um banco de dados... um gatilho para começar a desenhar...
Quarta parte:
Momento de depressão profunda aonde encaro a folha em branco e acho que não vou conseguir...
Quinta parte:
Vou fazer outra coisa da vida...
Sexta Parte:
Decido que não consigo fugir de quadrinhos e volto a produzir. Depois que faço a primeira página eu me auto critico (sempre) positivamente: Nossa! Até que eu levo jeito!! E prossigo até a última página num ritmo alucinante, como se não houvesse amanhã!!!
Nâo é um adeus, mas um até breve:
ABC estará de volta em El Fanzine 4
Finalizo no computador e envio pra aqueles amigos pra ter um feedback novamente.
Sétima Parte:
Descanso.
Tenho o costume de pensar em vários projetos ao mesmo tempo, e, normalmente, quando termino um, já tenho ideias para um próximo.

Como seguir você na Internet?

Pelo blog, facebook e twitter do El Fanzine, ou pelo meu blog (donebyabc.blogspot.com) e twitter: @cordeiro_abc.
EXCELSIOR!!

Um comentário:

Ozymandias Realista disse...

Depois dessa entrevista, eu tiro mais ainda meu chapéu pra esse cara. A manobra de investir o pouco que tinha e aprender inglês para ler uma porrada de coisa foi muito bem sacada.